A Festa do Corpo de Deus em Monção e o Combate de S. Jorge e a Coca

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Em 1264 o Papa Urbano IV através da Bula Transiturus, institui a comemoração da Solenidade do Corpo de Deus, fixando a sua celebração na quinta-feira depois da oitava do Pentecostes. Contudo, só com Clemente V e o Concílio de Viena em 1311 se decreta oficialmente a Festa cuja regulamentação se conclui só no século XV. Em Portugal o Corpo de Deus é celebrado desde o reinado de D. Afonso III, ainda sem procissão, (que já existia no reinado de D. João I com a presença da imagem de São Jorge a cavalo), mantendo-se até aos nossos dias, chegando a chamar-se a esta “procissão de São Jorge”.

Segundo João Pedro Ribeiro a presença e devoção a São Jorge, em Portugal, surgiu no reinado de D. Fernando após o apoio militar inglês em 1381, tendo depois o seu culto se estendido ao resto do país. Certo é que em pleno século XIV a comemoração incluía uma eucaristia e uma procissão que rapidamente se tornou numa das mais solenes, nomeadamente nos centros urbanos, onde o sagrado e o profano se confundiam e o espetáculo remetia para uma manifestação mais pagã do que cristã. Em cidades como Porto, Coimbra e Lisboa juntamente com o corpo eclesiástico, os mesteres estavam obrigados a desfilar no cortejo processional exibindo cada um o símbolo que representava, incluindo danças e folias, revelando um carater, às cerimónias, contrário ao pretendido pela igreja.

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Segundo a tradição e a lenda de São Jorge, este era um soldado romano martirizado por ordem de Diocleciano por não renegar a sua crença cristã, tendo o seu culto se espalhado por toda a Europa, ao longo da Idade Média, com grande fervor na Inglaterra. Na lenda São Jorge, para defender uma princesa do seu sacrifício perante um dragão, tê-lo-á morto num combate e assim libertado a mesma. Este combate tem vindo a ser representado ao longo de séculos simbolizando a luta do bem – São Jorge - contra o mal – Dragão / Coca. Em pleno século XV, cabia à câmara o grosso das despesas destas cerimónias, algo que ainda nos dias de hoje ocorre, desde a participação das paróquias na procissão à presença de cavaleiro e Coca nas celebrações e combate. Apesar das muitas alterações que esta celebração foi consagrando ao longo dos tempos, esta continuou a ter forte importância em algumas comunidades do Alto Minho, nomeadamente em Monção, onde a par das celebrações religiosas e da procissão se continua, pelo menos desde o século XVII, a fazer a representação do combate de São Jorge com o Dragão, aqui apelidado de Coca.

Monção terá desde sempre acompanhado a celebração do Corpo de Deus, mantendo o esplendor religioso próprio destas cerimónias. Na procissão e missa tomam parte todas as cruzes e pendões das paróquias, que formam o arciprestado de Monção, assim como as respetivas irmandades com as suas próprias opas.

Durante a manhã procede-se à arruada pelas ruas da vila de Monção, onde a Coca e o São Jorge são figuras presentes, sendo fonte de atração de pequenos e adultos, dando assim início à Festa do Corpo de Deus.

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Na missa, que se celebra na Igreja Matriz, estão presentes todas as cruzes e pendões das irmandades e paróquias, saindo todos em procissão pelas ruas acompanhadas pela população e pela Banda Musical de Monção, voltando à igreja onde se terminam as celebrações religiosas.
Após a procissão todos se deslocam para o local de combate, que antes se realizava na Praça Deu-la-Deu, sendo que agora se realiza no anfiteatro do Baluarte do Souto, onde se reúnem milhares de pessoas para assistir ao mesmo.
Perante uma enorme assistência, numa espécie de anfiteatro natural em tudo semelhante a uma arena, a Coca tenta pesarosamente escapar à perseguição de São Jorge que, envolto numa grande capa vermelha e empunhando alternadamente uma lança e uma espada, luta até vencer o temível dragão.

Desde longa data que vem documentado, em atas camarárias, o pagamento pela edilidade do cavaleiro que representará a figura de São Jorge, assim como, está ao encargo desta entidade o pagamento aos “empurradores” da Coca, por norma funcionários do município, que após o combate recolhem a figura gigantesca e a concertam para ano após ano ser vencida por São Jorge numa luta, diríamos inglória. São raras as imagens deste gigante dragão, representado por um boneco construído em tela sobre armação de madeira e com rodas disfarçadas sob as patas pintadas. A Coca é pintada de verde e tem cabeça móvel, que movida pelas pessoas que a manobram, tenta assustar cavalo e cavaleiro, sob os apupos do público. As cores berrantes e o tamanho provocam, também, no cavalo temores que dificultam a aproximação do cavaleiro que tem de desferir golpes na Coca. 

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Segundo a tradição, neste secular combate, São Jorge entra na arena empunhando uma espada dada pelo Presidente da Câmara, tendo com esta de cortar a orelha à Coca para assim lhe retirar o poder. De seguida, troca a espada pela lança com a qual tem de ferir mortalmente a besta na garganta, dando fim ao espetáculo, que demora o tempo suficiente para o cavaleiro vencer, por cansaço, os “empurradores” da Coca. Durante este tempo o público vai-se animando, premiando com aplausos a destreza de São Jorge. A inequívoca associação deste combate à luta do bem contra o mal, num meio rural como é Monção, está desde longa data associado ao ciclo agrícola.

Se a vitória sorrir à Coca aproximam-se maus anos mas se São Jorge vence todos se alegram com as fartas colheitas. Todos os anos se continua a realizar este combate que cada vez mais representa a tradição e costumes desta comunidade raiana, mas que também representa um património vivo, que se pretende preservar e legar para as gerações futuras.

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